Início · Lendas e costumes · A noite de Santo André: quando os strigoi saem
Há nos Cárpatos uma noite em que acontece de uma vez tudo o que no resto do ano vem separado: os mortos saem, os lobos se aproximam e, dentro de casa, não se fia, não se varre e não se empresta nada. Tem data: de 29 para 30 de novembro.
O calendário camponês romeno não faz o inverno começar em 21 de dezembro. Ele conhece o cap de iarnă, a cabeça do inverno, e ela cai no dia de Santo André. Dali em diante a estação é outra: as noites já são longas o bastante para que o que anda nelas não precise esperar a manhã.
Para a Romênia, o apóstolo André não é um santo qualquer. A tradição o faz pregar na Dobruja; é tido como o apóstolo dos romenos, e desde 2012 seu dia é feriado nacional. Na crença popular, porém, ele assumiu tarefas que igreja nenhuma lhe deu: guarda o limite entre a casa e o que está do lado de fora.
Aqui os registros concordam mais do que de costume: na noite de Santo André os strigoi começam a andar. Não só os mortos — também os strigoi vii, vivos cuja alma deixa o corpo à noite sem que eles saibam. Encontram-se na divisa dos campos, no hotar, e ali acertam o que há para acertar.
Agnes Murgoci anotou em 1926 como se imaginava isso: as strigoi saem de casa pela chaminé, inclusive as que acabaram de dar à luz, e voltam arrebentadas e em farrapos. Em algumas regiões a liberdade delas acaba na Epifania; em outras, só na Transfiguração, em agosto.
Sobre as criaturas em si: Strigoi e moroi. Esta página trata da data — e do que se fazia contra ela.
A defesa era barata, e é esse o ponto. Alho não custava nada e havia em toda casa.
Com um dente cortado desenhava-se uma cruz nas vidraças. Passava-se no batente da porta, na maçaneta, na borda da chaminé. Passava-se no próprio corpo — ombros e peito — e, no estábulo, nos úberes das vacas, porque o leite era tido como a primeira coisa a se perder.
Murgoci descreve os mesmos gestos para a noite de Santo André e para a de São Jorge, na primavera: as duas dobradiças em que gira o ano do campo. O que vale na noite de 23 de abril vale outra vez em 30 de novembro, só que para o outro lado.
Ao lado disso tudo está um costume que raramente se conta, porque não é sombrio e sim alegre: o păzitul usturoiului, a vigília do alho.
As moças juntavam suas cabeças de alho, marcadas com linha colorida, e as deixavam num quarto. Uma mulher mais velha velava por elas a noite inteira. Ao lado se comia — abóbora, tortas sem fermento, empadas de beterraba, cogumelos do mato, vinho — e mais tarde chegavam os rapazes e se dançava.
De manhã cada uma levava o seu alho de volta. Pelo resto do ano ele valia como remédio: contra febre, contra dores, contra aquilo que não se sabia explicar. A noite em que fora vigiado o tinha deixado forte.
Vale a pena pôr as duas coisas lado a lado. A mesma noite em que os mortos andam é a noite em que metade do vilarejo fica junto e dança. Quem conta só o susto conta metade.
Na crença popular, André é o senhor dos lobos. Em 30 de novembro, dizia-se, o lobo consegue virar o pescoço: um bicho que normalmente olha duro para a frente fica ágil nesse dia, e portanto perigoso.
Por isso não se dizia o nome. Dizer lup era chamá-lo. Se era preciso nomeá-lo, dizia-se aquele lá de fora. A crença está registrada sobretudo no sul da Moldávia e nos arredores de Galați; lá se assava a turta lupului, a broa do lobo, e se deixava do lado de fora.
Depois vêm as proibições dentro de casa, e são as mesmas em toda parte: não fiar, não costurar, não varrer, não deixar sair nada de casa. Quem emprestava alguma coisa naquela noite emprestava junto a proteção.
A precaução mais eficaz aparece quase de passagem nas anotações de Murgoci: não dormir de jeito nenhum, e sim contar histórias até o galo cantar. Enquanto se conta, os strigoi não conseguem chegar perto.
Não é reza nem amuleto. É uma instrução: ficar acordado e falar. E é a única defesa da noite inteira que não afasta nada — só cuida para que ninguém fique sozinho.
Como toda noite de limiar, a de Santo André também era noite de sina. Assava-se uma bolachinha de farinha, água e muito sal, a turtucă, comia-se antes de dormir e esperava-se para ver quem trazia água no sonho: era esse.
Outras punham dentes de alho numa tigela; conforme brotassem até o Ano-Novo, assim seria o ano. O trigo posto naquela noite em terra úmida e verde no Natal era lido como resposta sobre a colheita que vinha.
Nas Crônicas dos Cárpatos os lobos não são metáfora. Em O Vilarejo dos Enforcados eles descem nos invernos duros das florestas da montanha, atrás da fome, até os terreiros e as hortas: primeiro o uivo que atravessa a planície, depois, de manhã, as pegadas na neve, do tamanho da palma da mão, numa linha reta e decidida que não tem nada da brincadeira de um cachorro.
O narrador viu um no próprio quintal, em plena tarde, e registra que tudo o que se sabe sobre a timidez dos lobos não serve, naquele instante, absolutamente de nada: algo muito antigo no ser humano reconhece algo muito antigo no lobo, e os dois sabem exatamente qual deles é o visitante.
Essa é a explicação mais curta para o nome do lobo não ser dito nesse dia. Nas Crônicas dos Cárpatos de Corben Vale, devoção e superstição não são contrárias: são duas vizinhas que se cumprimentam por cima da mesma cerca — e o inverno faz das duas assunto de todo dia.
Os gestos de proteção da noite de Santo André estão registrados em Agnes Murgoci, The Vampire in Roumania (1926): a cruz de alho nas janelas, a saída dos strigoi nessa noite e o conselho de contar histórias até o cantar do galo. Os costumes do calendário, a vigília do alho e as sinas estão documentados na etnografia romena, entre outros em Tudor Pamfile, Sărbătorile la români (1914), e nos trabalhos de Ion Ghinoiu.
Que a noite circule hoje na imprensa como “o Halloween romeno” é um rótulo recente. Os costumes são mais velhos do que a comparação.
Na noite de 29 para 30 de novembro. O dia 30 é o de Santo André; na Romênia é feriado nacional desde 2012.
Porque havia em toda casa. A defesa precisava estar à mão: com ele se desenhava uma cruz nas janelas e no batente, e com ele se passava nos ombros, no peito e nos úberes das vacas.
A vigília do alho: as moças juntavam suas cabeças de alho durante a noite, uma mulher mais velha vigiava até de manhã e ao lado se festejava. Depois o alho servia de remédio pelo resto do ano.
A comparação vem da imprensa, não da tradição. Em comum têm a data, na beira do inverno; todo o resto — o alho, o lobo que não se nomeia, as histórias até o cantar do galo — não tem a ver com o Halloween.
Porque o nome valia como chamado. André é o senhor dos lobos na crença popular, e 30 de novembro passava pelo dia em que o lobo estava mais ágil.
Os mortos-vivos dos Cárpatos — a raiz do mito do vampiro.
Proteção contra o redivivo: uma foice sobre a garganta, um espinho na boca.
Por que às 3 da manhã é melhor ficar deitado.
As Crônicas dos Cárpatos de Corben Vale contam exatamente este tipo de histórias — baseadas em fatos reais. O Vilarejo dos Enforcados e Stafii estão publicados em sete idiomas.
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